No último dia do ano

Praia de Boa Viagem. Longos minutos depois de um calor escaldante nas areias e no mar, hora de voltar, pegar o carro e rumar para casa. Último dia do ano. Alarme desativado, porta do passageiro aberta, carro ligado, pertences colocados para dentro. Porta fechada, com uma certa insegurança, como se não devesse fazer aquilo.

Estava feito. O carro estava fechado com a chave dentro. Pior: as sandálias estavam no carro e os pés queimavam. O flanelinha queria cobrar cinco reais pelo aluguel de suas havaianas para o "sortudo" chamar o chaveiro ali, na pracinha de Boa Viagem. Foi lá. Chegando, o preço para a visita e o serviço: quarenta e cinco reais. Choros daqui e dali, preço acertado em trinta e cinco. Solidariedade de fim de ano.

O chaveiro tem uma moto e ela foi utilizada. Só de moto para andar pelas ruas na véspera do ano novo. Cada fino nos carros... Chegando, depois de duas tentativas, porta aberta. Na carteira, nem cheiro de dinheiro. Lá vai o motoqueiro-chaveiro seguindo o motorista do carro - medo de ser roubado. Paradinha num mercado, fila para o saque. Notas em mãos, volta, entrega ao chaveiro, aperto de mãos e desejos de prósperos.

Uma moto tinha sido estacionada tão colada na porta do carro que não era possível abrí-la. Mais uma vez, a manobra seria pela porta do passageiro. Mas, desta vez, com cuidado cirúrgico. Antes, um queimadura na coxa devido a um toque delicado no cano de escape de uma moto ao lado, mas capaz de deixar uma bolha milimetricamente desenhada.

Último dia do ano.

A senhora do fim de tarde

Debaixo daquele guarda-chuva guarda-se uma mulher. Olhos escondidos pelos óculos escuros. Lábios escondidos pelo batom vermelho, mais vermelho do que o sol de fim de tarde. Os sapatinhos, não de cristal, brilham de uma lama pisada há poucos minutos. Caminha como se um indicador a empurrasse, com pequenas sacolas nas mãos.

Olha para trás, desce, com o seu indicador, os óculos até a ponta do nariz. Faz cara de espanto. Apressa os passos.

O Natal já chegou desde outubro, praticamente. O Sentido dele ainda não.

Existem sentidos que engolem outros. Esses não são os melhores. Os sentidos perfeitos são os que deixam que os outros permaneçam, porque sabem que são perfeitamente perfeitos.

Pegou a mochila, devorada pelo tempo. Abriu a porta e se deu de cara.

Está nos livros recentes de Comunicação: escrever muito, em blog, é sentença de morte. Ninguém agüenta, inclusive eu, muito tempo lendo na telinha. Quem sou eu, então, para escrever mais de mil palavras e prender meu leitor? Na verdade, quem é este leitor, existe?
Lendo algumas críticas de livros (que consomem algumas páginas e árvores), penso: será mesmo que existem tantos leitores assim? Quem lê? E, lá vai o clichê, atenção: quem lê o quê? Eu, tão reticente e cabrero com essas coisas de auto-ajuda, pareço copiá-las. Em seis linhas, já escrevi alguma coisa importante?
Voltemos, então, ao início deste lenga-lenga (não sei se tem hífen). Como saber e escrever o que é importante em tão poucas linhas se muitas podem ser um tiro neste blog? Tiro o que disse?

O homem dos pombos

De longe, multidão de pombos. De perto, surpresa, um homem no meio deles. Em plena praia de Boa Viagem, um senhor aparentando suas 60 primaveras, de pernas sempre cruzadas, alimenta suas aves, companheiras de um sol escandalte.
Com aquele ar de "não estou nem aí" e, ao mesmo tempo, "olhem para mim", o senhor de óculos escuros permanece imóvel, como se posasse para uma fotografia. O problema é aquietar os pombos, ágeis e inconstantes como as ondas à frente.